Não faças de mim fotografia

Fotografia | PIER
Não faças de mim fotografia, é tudo o que te peço. Sei que, quando te quis apertar junto de mim, as coisas correram mal. E tu saíste de fugida. Perdoa-me por ter sido assim, brusco e intempestivo. Mas o meu feitio é assim, especial. Como o teu. Esqueço-me disso demasiadas vezes. E há coisas pequenas que eu amava em ti e que não sabia valorizar.
Mas depois paro para me lembrar, como tu eras frágil e te arrepiavas ao meu toque. Quando esvoaçavas daqui para fora, quando eu te dava prazer. O teu corpo e toda a tua tremura estavam comigo, mas a tua alma atingia um estado elevado qualquer que me excluía. Eras o pássaro livre, como eu dizia. Tu sorrias quando eu dizia isso. E era bom ver-te sorrir.
De repente, ouvi rumores na janela e quis falar contigo, num dia em que me apetece ver-te, sentir-te. Sinto a tua falta, aqui. E pensei que hoje seria diferente. Mas não.
Gosto de pensar em como as coisas seriam, se estivesses aqui. Fugiste de mim há pouco tempo, e, sim, é só um momento de autocomiseração diária, flagelo quotidiano com as estúpidas lembranças que não morrem. Mas tu conheces-me, eu sou assim. E acho que daí posso retirar algum tipo de satisfação, de felicidade, até. Talvez me compreendesses, se te lembrasses de coisas que aconteceram há uns meses.
Sim, houve coisas que eu não percebi, entre o que tu eras e o que passaste a ser, nem percebi como é que elas aconteceram.
Bernardo

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