Queria morder o teu ódio com os caninos

Fotografia Freudenthal Verhagen
Queria morder o teu ódio com os caninos e sentir dor ao ver-te ranger ossos e dentes. E que os meus lábios jorrassem sangue que espurgasse todo esse ódio que me tens. Queria esquecer-te e impedir que me mates. Os dias parecem sempre maiores quando não estás. E com mais tempo para mim.
Não queria que me odiasses, mas parece que a vida se torna insuportável quando te tenho perto de mim. E para ti, a vida tornou-se insuportável porque me conheceste. Não é presunção, é analisar como as coisas acontecem quando me vês e me prescrutas. E eu sinto o teu ódio cravado nas minhas costas. Ainda mais quando não te vejo. É sempre doloroso ver-te matares mais um pouco de mim.
Hoje pensei em ti. Curiosamente, mesmo depois do teu ódio, acho que as coisas podiam ter sido diferentes. Quando me olho no espelho, vejo reflectida a pessoa que sempre quis ser contigo, que quis que visses em mim. Dói por vezes perceber que nunca viste em mim quem eu era realmente. Sim, se calhar foi por causa da transparência opaca do meu coração.
Queria ir-te esquecendo. Aos poucos, sem dor, já. Os dias tomam essa cor baça e melancólica dos momentos quentes, e a anestesia é a paixão que se desvanece. Perder-te(me) no meio da multidão. Das massas humanas. Perdermo-nos. De preferência com rumos diferentes.
Guiomar

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